Base Aérea do Galeão - Prisioneiros políticos libertados e
deportados em troca do embaixador norte-americano. (clique p/ ampliar)
Começa hoje o julgamento do criador e cabeça do mensalão: José Dirceu de Oliveira e Silva, mineiro de Passa-Quatro, nascido em 16 de março de 1946, advogado e político.
Ser de inteligência privilegiada, líder nato, começou a destacar-se ao mesmo tempo em que a ditadura militar começou no Brasil. Iniciou sua militância política já no primeiro ano de seus estudos de Direito na PUC-SP, quando foi eleito vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), em 65. Em 1967, líder de destaque, presidiu a União Estadual de Estudantes (UEE). Em 68 foi preso em Ibiúna-SP, pelos militares, durante a tentativa de realização do XX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Foi libertado em 69, juntamente com outros presos políticos, em troca do embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por guerrilheiros do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Este sequestro do embaixador foi contado no livro "O Que É Isso, Companheiro?", de Fernando Gabeira (1979), e posteriormente transformado em filme de Bruno Barreto (1997). Os presos libertados foram deportados e enviados para o México num avião Hércules C-130 da FAB (vejam a foto). Do México, alguns seguiram para Paris e outros para Cuba. José Dirceu preferiu exilar-se em Cuba, onde trabalhou, estudou e recebeu treinamento militar.
Voltou ao Brasil em 71 e viveu como clandestino em São Paulo e em cidades do nordeste. Temendo ser reconhecido, voltou a Cuba em 1975 para uma cirurgia plástica. De volta ao Brasil com novo rosto e outro nome, "Carlos Henrique Gouveia de Mello", foi morar no Paraná, em Cruzeiro do Oeste, onde passou a viver em total clandestinidade. Casou-se com Clara Becker e escondeu seu passado e sua verdadeira identidade até própria esposa, para preservá-la e preservar-se de riscos.
Quando houve a anisitia, em 79, voltou a Cuba, desfez a cirurgia plástica e retornou ao Brasil, agora para viver legalmente. Retomou sua participação na política e foi atuante na formação do Partido dos Trabalhadore (PT). Foi eleito deputado estadual em São Paulo, de 87 a 91. Eleito deputado federal em 1992, foi um dos autores do pedido de instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que levou ao
impeachment de Fernando Collor de Mello. Concorreu ao governo de São Paulo, foi derrotado e assumiu a presidência do PT, por indicação de Lula. Foi reeleito presidente do partido em 1997 e 2001.
Lula eleito presidente, José Dirceu foi Ministro-Chefe da Casa Civil de 2003 até junho de 2005, quando voltou ao mandato de deputado federal (estava licenciado). Foi o grande articulador do governo no Parlamento até ser cassado no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar, em 1º de dezembro de 2005, após as denúncias do então deputado Roberto Jefferson sobre o esquema do mensalão. Está inelegível até 2015.
Essa história de vida me faz acreditar que José Dirceu seja o criador e chefão do mensalão, convencendo com facilidade seus colegas de partido de que este "esquema sujo" - para obter maioria no parlamento - seria "útil" ao Brasil e aos brasileiros. Se Lula sabia ou não sabia daquele "esquema sujo", só quem tem acesso aos autos do processo que tramita no STF pode dizer, com base nas provas e nos depoimentos que lá estão. José Dirceu tem dotes para convencer a quase todos do que quiser, até de que não existe vida fora da Terra ou de que existe vida depois da morte...
É cristalino, qualquer cego pode ver, que o mensalão - compra de votos de parlamentares para que aprovassem atos de interesse do governo - existiu. Existia antes, existiu com José Dirceu e continua existindo nos piores ambientes políticos, inclusive em Angra dos Reis, como ficou comprovado nas votações na CMAR do caso das Vans, dos Mototáxis ou da Senhor do Bonfim a R$1, para ficarmos nos exemplos mais gritantes.
Pelos males e crimes que trouxeram ao meio político, os participantes do mensalão estão sendo todos condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje começa o julgamento dos cabeças do esquema, entre eles José Dirceu. Pelo grande mal que causou ao nome do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu deveria ser repudiado por todos os petistas. Por sua história de luta pela restauração da democracia em nosso país José Dirceu deve ser respeitado e lembrado por todos os brasileiros. É lamentável que ele próprio não tenha tido a sabedoria e a humildade necessárias para fazer política num ambiente democrático e deve pagar por isso. O pecado mortal de Dirceu é resultado de sua arrogância.